7. Vidro Duplo de Qualidade
As áreas envidraçadas são os pontos de maior contacto entre o interior da habitação e o clima exterior. São também um dos elementos construtivos que, durante as últimas décadas, mais beneficiou de um desenvolvimento essencial marcante. Este desenvolvimento tecnológico tornou o vidro (sempre duplo) mais sofisticado e deu-lhe qualidades que contribuem para optimizar o desempenho energético-ambiental dos edifícios, ao ponto de existirem sistemas envidraçados que atingem um grau de desempenho energético similar ao de uma parede maciça vulgar.
Com o aumento da selectividade em relação ao que passa do exterior para o interior (e vice versa), já é possível deixar crescer as áreas envidraçadas em proporção às áreas opacas da fachada para obter, no interior, um maior grau de luminosidade, sem prejudicar o desempenho energético-ambiental do edifício. Mas para garantirem o conforto e para poderem cumprir o novo enquadramento, legal, as grandes áreas envidraçadas que, sem dúvida, constituem um sinónimo de modernidade e de sofisticação, devem possuir características técnicas muito próprias. Com o objectivo de conter o consumo de energia e as respectivas emissões de CO2 para a atmosfera e de interagir de forma positiva com o nosso clima, é necessário que se estabeleça um equilíbrio adequado entre áreas opacas (paredes cuja inércia térmica armazena a temperatura média do clima) e áreas envidraçadas (que permitam uma interacção imediata com a radiação solar e a temperatura exterior) na envolvente do edifício de habitação. É muito importante que os materiais pesados no interior da habitação tenham capacidade para absorver uma grande parte do calor que penetra através dos vãos envidraçados, motivo pelo qual o factor solar quantifica o calor da radiação solar que atravessa para o interior dos vidros e deve ser definido consoante a inércia térmica disponível.
Para alcançarmos um excelente desempenho energético-ambiental, o Engenheiro Térmico terá que ser envolvido neste processo de concepção - sendo ele quem dará os contributos quantitativos, tanto no que diz respeito à dimensão dos vãos, como à especificação do sistema, sempre sujeito a desenvolvimento tecnológico. O que permanece à vista de todos, é apenas a característica do vidro incolor, ainda a escolha preferencial para edifícios de habitação, uma vez que permite a entrada de toda a luminosidade disponível para o interior da habitação.
QUALIDADES DO VIDRO A CONSIDERAR NO ACTO DE ESPECIFICAÇÃO
Existe um conjunto de qualidades novas que resultam do desenvolvimento tecnológico do vidro que é extremamente importante ter em consideração no momento de seleccionar criteriosamente o vidro para um dado projecto. A especificação do vidro varia, consoante os contextos específicos em que se pretende aplicar o painel de vidro duplo, dado este representar, cada vez mais, o papel de um filtro que transmite, tanto para o interior como para o exterior, apenas uma parte controlável da radiação. Sobretudo nos projectos ou reabilitações em que se pretende aumentar a luminosidade nas divisões e, consequentemente, aumentar as áreas envidraçadas, é importante considerar os seguintes aspectos técnicos:
> O coeficiente de transmissão térmica do vão envidraçado (designado por factor U) depende de três factores fundamentais. As características técnicas dos próprios vidros duplos, a qualidade da caixilharia e o grau de protecção oferecido pelo sistema de sombreamento exterior – este conjunto de factores deve conseguir reduzir as perdas térmicas do interior para o exterior, para que sejam criadas condições de conforto no interior e junto do mesmo, e deve controlar os ganhos de calor do exterior para o interior;
> O factor solar do vidro resulta da soma do fluxo transmitido e do fluxo irradiado pelos raios solares que incidem sobre o vão - e deve ser o adequado para o contexto específico em que o vidro é aplicado;
> O coeficiente de transmissão luminosa do vidro deve ser o adequado para as actividades que se exercem no interior;
> A relação entre a transmissão luminosa e o factor solar é muito relevante sendo designada por índice de selectividade e calculada, dividindo a transmissão luminosa pelo factor solar;
> As propriedades de segurança e de resistência mecânica do painel de vidro duplo, em que pelo menos um dos vidros deve resistir ao impacto mecânico do vento e precaver a intrusão ou mesmo a quebra;
> O grau de resistência à sujidade do vidro exterior, que contribui para reduzir a manutenção, bem como a utilização de químicos a empregar na sua limpeza.
Considerando a orientação solar, as dimensões do vão e o uso dos espaços por ele protegidos, as características técnicas dos painéis de vidro que determinam a relação mais directa entre o interior e o exterior, devem obedecer à definição do Engenheiro Térmico. Orientações solares diferentes num mesmo edifício, remetem para a utilização de um vidro com outras características técnicas.
Algumas indicações úteis para a especificação do vidro, sempre duplo, num projecto de edifício em contexto urbano, novo ou a reabilitar, em que as áreas envidraçadas não ultrapassam os 25% da área útil da habitação e em que, pelo menos, as paredes externas são maciças, capazes de armazenar os ganhos solares térmicos:
Em alçados orientados a Norte ou que estejam permanentemente sombreados, o factor solar não é relevante, sendo importante especificar vidro com um factor U de 1,1.
Em alçados orientados a Nascente, Poente e Sul, o factor U poderá ser 1,6, mas o factor solar deverá ser igual ou inferior a 0,4. Idealmente, o índice de selectividade (relação entre a transmissão luminosa e o factor solar) deveria ser 2 - o que é possível atingir com um valor de transmissão luminosa de 0,8 e um factor solar de 0,4, bem como com um valor de transmissão luminosa de 0,5 e um factor solar de 0,25.
A espessura dos vidros e da caixa-de-ar deverá ser (do exterior para o interior): vidro com 8 mm, caixa-de-ar de 10 mm e vidro com 6 mm - assim assegurando uma redução de 35 dB de ruído do exterior para o interior.
Os vidros deverão ser sempre incolores, para deixar passar toda a luz.
MANUTENÇÃO
Para facilitar a manutenção e limpeza, é importante que todas as janelas proporcionem o acesso a ambas as faces e que se especifique um vidro que tenha elevada resistência à sujidade.
O QUE DEVE SER EVITADO
Por mais atractivo que seja qualificado, em território Português, um edifício de habitação predominantemente em vidro será sempre sinónimo de um crime ambiental. Mesmo que o vidro possua as mais evoluídas características técnicas disponíveis, no sentido de optimizar o respectivo desempenho energético-ambiental, a mensagem estética que passa é extremamente insustentável. Embora, presentemente, existam soluções para áreas envidraçadas que conseguem um desempenho quase comparável ao de uma parede, só raramente são aplicadas, devido ao elevado custo económico.
Conteúdo brevemente disponível.
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