31. Tratamento das Superfícies em contacto com o Ar Interior
É muito importante que todos os edifícios, mesmo sem vãos abertos, possam “respirar” implicando este aspecto que a envolvente construída permita a saída do vapor do interior para o exterior, que os materiais utilizados em revestimentos que permanecem em contacto com o ar interior sejam qualificadores e não contaminadores dessa qualidade e que os sistemas de ventilação (caso haja) sejam cuidadosamente mantidos para evitar que também contribuam para a contaminação da qualidade do ar interior.
Alguns dos ingredientes que estão incorporados nos materiais com os quais revestimos as superfícies interiores dos espaços que habitamos, são voláteis – isto significa que se libertam do conjunto de materiais que incorporaram aquando da aplicação e contaminam a qualidade do ar interior. Chamados compostos orgânicos voláteis (COV) são uma das principais fontes de contaminação da qualidade do ar interior. Cabe à equipa projectista, ao definir os materiais que revestem as superfícies que estarão em contacto com o ar interior, acompanhar também o desenvolvimento tecnológico, no intuito de conseguir que estas superfícies possam vir a contribuir para “limpar” o ar interior.
Quando entramos num espaço, o cheiro ou sabor que sentimos são indicadores dos ingredientes que se encontram suspensos no ar e vão determinar fortemente a nossa sensação de conforto e de bem-estar. Determinam também o grau de salubridade e da qualidade do ar, nesse mesmo espaço.
Durante as últimas 3 décadas, a qualidade do ar interior é tema que ganhou importância à escala internacional, especialmente devido ao aumento exponencial das doenças do foro respiratório e das alergias, que se propagam em todas as classes etárias e sociais. Sabemos que os materiais emitem para o ar substâncias que inspiramos e que causam um conjunto de reacções no nosso corpo que, nos casos menos graves, provocam, no mínimo, desconforto, enfraquecem as nossas defesas e podem, nos casos mais extremos, causar doenças crónicas. Em edifícios que, para criar condições de conforto, dependem de sistemas artificiais, está comprovado que uma das principais fontes de contaminação da qualidade do ar interior é a libertação de componentes nocivos, provenientes dos próprios sistemas de ar condicionado. As principais causas são a falta de manutenção dos respectivos filtros e outros focos de contaminação nos sistemas, além de, muitas vezes, o dimensionamento dos sistemas não ser adequado à intensidade da sua utilização nos edifícios. Seguro é, no entanto, que a indústria de ar condicionado, relativamente recente, que hoje chega a ter maior expressão no mercado do que a indústria automóvel, não irá desistir do seu negócio que assenta no mau desempenho dos edifícios.
Está nas mãos da equipa que projecta os edifícios, conceber edifícios que minimizem a necessidade de sistemas para atingirem as condições necessárias de habitabilidade e, caso se tornem necessários sistemas, é importante que estes sejam adequadamente dimensionados, careçam de baixíssima manutenção e promovam uma melhor qualidade do ar interior.
De uma forma subtil, isto já acontece com paredes estucadas e pintadas com tintas de água bem permeáveis aos vapores, porque podem atenuar muito mais ou fazer desaparecer do interior um cheiro agressivo que se sente no exterior da habitação, mesmo que as janelas se encontrem abertas. O que é verdade é que qualquer tinta, verniz ou cola que esteja em contacto com o ar e tenha componentes voláteis activos e nocivos pode marcar o odor de um espaço durante anos e afecta também a saúde dos utilizadores.
Quaisquer tintas aplicadas sobre superfícies verticais (interiores ou exteriores) que criem uma barreira ao vapor são a principal causa de condensações, do aparecimento de humidades e de fungos. É um erro crasso considerar as tintas “impermeabilizantes” como a solução para eliminar humidades no interior da habitação. Quem as recomenda, esquece que, quotidianamente, devido às actividades humanas, é gerado um considerável volume de água no interior da habitação que, ao impermeabilizar as paredes exteriores, fica retido no interior.
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