37. Materiais Reciclados
O consumidor final decide quais os produtos que compra, em função do que o mercado lhe coloca disposição e em função da informação que tem ao seu dispor. Hoje encontramos no mercado cada vez mais produtos que incorporam materiais reciclados.
Cada acto de compra é a nossa expressão de poder individual mais directa, e é interpretada como o nosso desejo em relação à forma como o mercado se deve transformar. É por este motivo importante que como consumidores estejamos tão informados quanto possível sobre os produtos que compramos e consumimos. Para além do custo de aquisição, a informação que devemos exigir deve abranger a origem do produto, os seus impactos energético-ambientais e sociais durante o seu fabrico e ao logo da sua vida útil, os efeitos sobre a nossa saúde e os impactos relacionados com o seu fim de vida.
Não podemos esquecer que para além dos seus ingredientes, todos os produtos úteis com impactos positivos que possam ter uma longevidade maior, contribuem para reduzir as pressões ambientais. A obsolescência dos produtos que adquirimos é em muitos casos planeada e em outros apenas aparente.
Aquela obsolescência planeada tem de ser denunciada pelo consumidor ao respectivo fabricante! Quando adquirirmos um produto temos de comunicar ao fabricante a mensagem de critica correspondente ao produto. Por exemplo: eu comprei o novo produto X, porém o facto do carregador do meu anterior produto não ser utilizável com o produto X, obriga-me a adquirir um novo carregador o que é extremamente frustrante e ambientalmente incorrecto! Quantos carregadores temos em casa, postos de parte, que estão em perfeito estado e que não servem para os equipamentos eléctricos e electrónicos que actualmente utilizamos ?
Mas também existe a obsolescência aparente – quando o produto X deixa de ter uma ou mais das suas funcionalidades, muitas vezes apenas aparentemente. Como não dominamos os aspectos técnicos da sua constituição, permanecemos nas mãos de quem o pode reparar, o qual normalmente tem mais vantagem se comprarmos um novo produto! A reparação apenas é devida dentro do prazo de garantia, em que as partes a substituir ainda estão disponíveis e este prazo é muito mais curto do que a potencial longevidade do produto!
Toda esta obsolescência é completamente evitável, se nós, como consumidores conscientes, soubermos comunicar aos fabricantes o nosso descontentamento! Porque os fabricantes apenas abusam do espaço que lhe damos. Quando a exigência da universalidade das partes e dos acessórios se tornar condição para a nossa compra, certamente que esse espaço para abusar desaparece. Afinal, se nós consumirmos menos do desnecessário, haverá mais produtos disponíveis para outros mercados que os consideram necessários, e ainda não têm acesso aos mesmos! Alcançar esses mercados poderá representar um maior esforço para os fabricantes, mas o custo ambiental da obsolescência planeada e aparente é demasiado alto para ser suportado por todos nós, económica, ética e politicamente!
Da mesma forma em que as cidades concentram as pressões ambientais associadas aos demais consumos, também o consumo de materiais resultam em consideráveis pressões ambientais. Por exemplo, para fazer chegar os bens de consumo aos Lisboetas, as emissões de CO2eq para a atmosfera, associadas ao transporte de mercadorias em Lisboa, atingem quase 50% das emissões associadas aos transportes rodoviários, isto é, aproximadamente um quinto das toneladas de CO2eq emitidas em Lisboa todos os anos.
Tendo ainda em conta o exemplo de Lisboa e contabilizando as unidades físicas de material que entra na cidade, verifica-se que uma grande parte está destinada a permanecer durante mais de 11 anos e a contribuir para aumentar e consolidar o meio edificado. Estes materiais acumulados na cidade – em edifícios e em infra-estruturas - se forem adequadamente utilizados, vão contribuir, ao longo de muitos anos, para o bem-estar das pessoas, pelo que, neste âmbito não se torna necessário reduzir ao mínimo as necessidades materiais, sobretudo se tivermos em consideração que o contexto climático português requer uma elevada inércia térmica (materiais pesados) para poder acumular e transmitir para o interior dos edifícios calor em temperaturas consideradas confortáveis.
A importância das decisões tomadas aquando da concepção inicial reflecte-se, por um lado, no custo da construção (pelo que é nesta fase que devem ser tidas em conta todas as condicionantes que definem o edifício e devem ser convidados a participar todos os especialistas) e, por outro lado, no impacto ambiental dos edifícios. É na concepção dos edifícios que se deve especificar a origem dos materiais de construção, que se deve determinar o respectivo impacto ambiental e que os conhecimentos individuais de todos os elementos da equipa projectista devem contribuir para a optimização do desempenho energético-ambiental do edifício, bem como para a minimização do respectivo custo de construção.
Mas mesmo que para o edifício se tenham tido em consideração todos os impactos, quando o Dono de Obra ou Promotor consulta empreiteiros para a execução da obra nem sempre é possível manter as especificações do projecto, especialmente quando o preço se torna o factor decisivo, a não ser que sejam salvaguardadas, no programa de consulta, as características dos materiais que garantem:
> Uma excelente qualidade do ar interior;
> Um excelente desempenho energético-ambiental resultante da sua aplicação;
> A minimização do respectivo impacto ambiental, tendo em consideração a globalidade do ciclo de vida;
> A origem dos materiais, perante o impacto do transporte dos mesmos (a distância de onde provêm os materiais a utilizar).
Torna-se ainda mais relevante que o promotor especifique a classe de desempenho que pretende atingir com o edifício, no âmbito da certificação energética ou / e da certificação ambiental do edifício.
Os objectivos de desempenho energético-ambiental podem resultar num valor de construção ligeiramente superior, quando comparado com um edifício convencional, mas no contexto de mercado, que é sempre mais competitivo, a diferenciação positiva no âmbito da dimensão de desempenho energético-ambiental terá sempre mais sucesso.
Ao exigir certificados ambientais que comprovem a origem, a composição e os impactos ambientais dos materiais, para além do certificado energético (obrigatório) e das garantias de materiais e de sistemas empregues na construção, que devem assegurar o seu bom desempenho ao longo do tempo e as respectivas reparações, caso necessário, o utilizador final está a exercer pressão sobre a indústria da construção, o que poderá ter um efeito extremamente positivo sobre o alargamento das boas práticas na produção de sistemas e de materiais no sector da construção. Por exemplo, um sistema de soalho flutuante pode ser composto por madeira reciclada, pode ser proveniente de florestas replantadas e deve ser envernizado com vernizes adequados e não nocivos - características que contribuem para a redução do respectivo impacto ambiental.
Conteúdo brevemente disponível.
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